domingo, 11 de julho de 2010

Contista convidado: George dos Santos Pacheco

Ler Um Presente Para Elpídio é como entrar em um veículo desconhecido sem saber o destino final. Neste causo macabro, George dos Santos Pacheco lentamente evolve o leitor com seu estilo oral e direto e inadvertidamente nos arremessa numa espiral de incerteza e escuridão.Sr Elpídio, velinho simpático e boa praça... eu não queria estar em sua pele (:


UM PRESENTE PARA ELPÍDIO


Por George dos Santos Pacheco


O sol ia alto naquele dia. O calor causticante não perdoava quem quer que fosse. As folhas das plantas estavam murchas, e murchos também pareciam estar os outros seres viventes. Alguns cachorros descansavam à sombra, sob as marquises, com suas línguas gotejantes penduradas no canto da boca. As crianças subiam a rua com suas pesadas mochilas e bochechas coradas. Algumas mulheres prendiam suas roupas ao varal. Era bom aproveitar enquanto a chuva não vinha. Os velhos… Ah os velhos! Alguns estavam sentados às praças, ou jogando milhos aos pombos, ou jogando damas com seus companheiros. Nem um desses casos era o de Elpídio.
Elpídio era um senhor que parecia ter uns cem anos, um dos mais velhos de todo o lugarejo. Mas nem ele mesmo sabia exatamente sua idade. Ficava o dia todo caminhando com dificuldade por aí, apoiando-se em sua bengala. Às vezes ficava na praça, ora assistindo aos jogos de seus amigos, ora conversando com alguém que atirava alimento para as aves. Na porta de um bar qualquer, chutava um cachorro que dormia tranqüilo, abanando a orelha para afugentar as moscas. Dali assistia as crianças retornarem da escola. Um mero espectador. Quisera ele ter tido netos, um cachorro ou simplesmente ter aprendido a jogar damas.
– Feliz aniversário Sr. Elpídio! – disse um vizinho. Ele respondeu com um resmungo qualquer. Para ele não havia motivo para comemorar.
Já havia tentado o suicídio várias vezes. Numa ocasião, amarrou a corda de sisal em um galho de um abacateiro, pôs o pescoço no laço e saltou. Depois de muito se debater e sufocar, sua vista turvou-se. Pensou que seria desta vez, mas… O galho não resistiu ao seu peso e quebrou. Lá se foram ao chão Elpídio, a corda e a madeira que antes de chegar ao solo já tinha atingido a cabeça do velho. Noutra vez, atravessou na frente de um ônibus no centro da cidade. O homem sentiu um estalo na cabeça e desmaiou. Acordou no hospital. Foi socorrido e não sofrera nada além de um osso quebrado… Na mão! Uma falange.
Sua ânsia pela morte era justificada pela vida que levava. Não havia conseguido nada de bom e ela parecia ser um grande sofrimento. Devia a tudo e a todos e sua aposentadoria mal dava para se alimentar. Se ficava o dia inteiro fora de casa, era porque sua permanência dentro daquelas paredes era um martírio. Na verdade, seus maiores problemas eram motivo tanto para matar-se como perambular ao léu. Surgiram há muitos anos…
– Mais um ano, hein Sr. Elpídio? Feliz aniversário! – disse outra pessoa, com uma entonação na voz como se falasse a um bebê. Isso era o mais ridículo de se envelhecer. Na maioria das vezes se é tratado como um recém nascido. Outra vez o velho rabugento nada respondeu.
Por trás daquela máscara de velhinho do interior, pacato, havia outra pessoa. Elpídio nunca foi um bom homem. Desde cedo aprendeu a roubar. Os artigos eram dos mais variados: Um lápis na escola, as frutas no quintal do vizinho, algumas moedas de sua mãe, o troco do dono do bar… Viciou-se nisso. Buscava sempre uma coisa de valor maior.
A primeira morte foi aos treze anos. Banhava-se à tardinha com um colega num riacho próximo de casa. Num mergulho do amigo, um grande volume de água atingiu seu rosto. Ficou furioso. Segurou a cabeça do outro imersa, até que ele parasse de se agitar. Soltou o corpo depois disso, e deixou que a corrente o levasse. Procuraram a criança por dias. Nunca ninguém desconfiou dele. Sua única testemunha tinha ido por água abaixo. Viciou-se nisso.
Em certa época, algumas garotas do bairro sumiram misteriosamente. Elpídio sempre foi um belo jovem e não era difícil atraí-las para a mata ou lugares ermos. De posse de uma faca cortava o pescoço da vítima e banhava-se com o sangue que esguichava em jatos intermitentes. Acreditava que o líquido quente e vermelho o deixaria eternamente jovem… Foi assim por anos a fio. Uma das mulheres, antes de morrer, olhou-o com ira. Suas conjuntivas estavam raiadas de vermelho, devido à força que fizera para desprender-se do malfeitor.
– Vais me pagar desgraçado! – disse ela quase sem forças.
Foi então que seus problemas surgiram.
Não havia nada demais em sua rotina diária. Depois do trabalho, colocava uma boa roupa, tomava umas cervejas e lá pelas dez horas já estava deitado em sua cama, ressonando. Sua casa parecia serena… Nesta noite, quando o relógio de parede deu doze badaladas o inesperado aconteceu. Elpídio acordou com um choro insuportável. Esfregou os olhos e levantou, caminhando descalço em direção ao som. Afinal de onde viria? E quem era essa pessoa que estava aos prantos? Parecia ser de dentro de sua casa, mas ele morava sozinho… Então…
Chegando à cozinha avistou uma moça com uma longa camisola branca, com as mãos no rosto, soluçando de tanto chorar. Ele não pensou em nada e se aproximou.
– Quem é você? – disse ele. As lágrimas da mulher tocaram fundo em seu espírito como nunca qualquer coisa tinha feito.
De repente a mulher saltou sobre ele. Sua face transmudou de angelical para monstruoso em questão de segundos. Seus dentes pontiagudos buscavam a carne de Elpídio que lutava com todas as suas forças para livrar-se. As unhas negras da criatura estavam fincadas em seu ombro e a dor era fora do comum. Sentia o líquido quente escorrer pelas suas costas e o embate parecia não ter fim. Ela grunhia coisas inaudíveis ou incapazes de serem entendidas e seu hálito pútrido dominava as narinas do homem, causando engulhos.
– Eu não disse que ia me pagar, peste! – esbravejou o monstro no corpo de uma mulher.
Elpídio tinha o corpo cheio de chagas que latejavam fortemente. Acordou no outro dia sem uma sequer. As dores, porém, continuavam. Todos os dias sua angústia era a mesma. À meia noite, doze badaladas eram a porta de entrada das almas que ele havia despachado para o além mundo. A cada dia, mais uma se juntava à mulher que o tinha atacado a primeira noite. Tornaram-se dezenas.
Para fugir de seu destino trancava a porta de seu quarto, mas isso de nada adiantava. Quebrou o relógio, mas isso também não tinha efeito. Mudou de casa, enforcou-se, atirou-se embaixo de carros… Nada parecia solucionar seu drama. E todo dia que passava, toda noite mal dormida, todo ano que surgia, parecia mais tenebroso. Por isso não comemorava mais nenhum aniversário. E nesse não seria diferente. Preparou-se para o encontro que ele desejava ser o último.
Sentou-se à beirada de sua cama. Exatamente no horário de costume, sombras se esgueiravam pelos cantos das paredes e surgiam por baixo dos móveis. As pessoas atravessavam as paredes ou abriam a porta, entrando no cômodo para fazer-lhe companhia. Algumas caminhavam agachadas ao teto como aranhas… Enquanto uns choravam, outros esbravejavam maldições para Elpídio. Se ameaçasse retrucar, atiravam-se sobre ele, arranhando e mordendo, arrancando-lhe pedaços de carne. Por um momento desvencilhou-se. Estava desesperado. Suas mãos enrugadas e trêmulas empunharam uma pequena faca cortando os pulsos. Tudo estaria terminado, mas para sua surpresa, não sangrou uma gota sequer.
– Ah… Então é este o presente que quer este ano? A morte? – disse uma das almas, gargalhando insanamente.
O velho então sentiu uma forte dor no peito. Curvou-se até o chão, babando e gemendo. Olhava suplicante para as almas que sorriam. Tinha os olhos marejados e estava ofegante. Sua vista foi escurecendo lentamente. Seu braço esquerdo tinha adormecido, bem como todas as extremidades de seu corpo. Deitou ao chão sem forças e sorrindo. Finalmente estava tudo acabado!
Abriu os olhos lentamente. Estava em uma assustadora e espessa escuridão. Percebeu que não respirava, não tinha mais necessidade disso. O frio parecia atingir-lhe os ossos e passou a mão na pele, para se aquecer, sentindo feridas purulentas que doíam mais do que antes. O cheiro de podre empesteava todo o ambiente. Ouviu gargalhadas que ecoavam distantes como em uma caverna de mármore.
– Ora Elpídio… Não achou que faltaríamos à sua festa, não é?
– Não! Por favor, não! – gritava ele, chorando, enquanto sentia seu corpo ser devorado por todos os lados.
– O teu presente somos nós. Feliz aniversário…

FIM

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George dos Santos Pacheco nasceu em Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro em 07 de outubro de 1981. Saudosista dos anos 80, geração a que pertence, sempre gostou de filmes, música e livros. Apesar disso não lia tanto, tornando-se um hábito quando se casou em 2003, pois sua esposa também é apaixonada por livros. Assistia a uma entrevista em um canal de TV, num programa de debates. Tema: Literatura. “Todo mundo é capaz de escrever um livro” – diziam. –Eu? George Pacheco escrevendo um livro? – pensava. Sim, é possível. Começou a escrever e não parou mais. Hoje se considera um escritor compulsivo. Faz parte da nova safra de escritores do país, fazendo sua estréia com O Fantasma do Mare Dei, a ser lançado ainda em 2010, pela Editora Multifoco. Participa também da Coletânea de Contos Policiais Assassinos S/A Vol. II. Publica contos e crônicas em diversos sites, inclusive em seu blog, revistapa-checo.blogspot.com. Contatos pelo e-mail pacheconetuno@oi.com.br.

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