sábado, 5 de junho de 2010

Contista convidado: Pedro Moreno

Narrado com maestria e excelente poder descritivo, Pedro Moreno em Vestido de Noiva honra a tradição do suspense noir sobrenatural e o arrepio sutil. Falar mais estragaria as surpresas deste ótimo conto.


Vestido de Noiva


Por Pedro Moreno

O barulho das máquinas de costura aos poucos vai diminuindo conforme os aparelhos são desligados. Quando a lua já está alta no céu só apenas a costura de João Carlos se faz ouvida, ininterrupta com linha reta firme, tal qual sua mãe lhe ensinara quando ele era um pequeno fascinado pelo trabalho de sua progenitora.
Agora com cinquenta anos de idade, João percebe que não saberia fazer nada além de costurar. Em sua oficina trabalham trinta mulheres que se revezam em três turnos. Algumas desenham, outras cortam os moldes e por fim têm as costureiras e bordadeiras que colocam o sonho em uma peça caprichada.
Ateliê Santo Antônio faz a promessa do santo ganhar ares reais. Por mês mais de cinquenta vestidos de noiva são feitos e o dobro são reformados garantindo o grande sonho de se casar no mais puro branco de véu e grinalda. João ainda se lembra quando começou a ajudar sua mãe na costura, sempre tão dedicado, aprendeu rápido o ofício e ainda hoje mantém o costume de só parar de trabalhar depois que todos forem embora.
O galpão que hoje ocupa o ateliê em nada lembra o começo pobre, diversas araras cobrem as paredes com a alvura dos vestidos de noiva, a monotonia só é quebrada pelos vestidos coloridos de madrinhas e os fraques elegantes dos homens. São prateleiras com sapatos envernizados, gavetas multicoloridas de gravatas e dezenas de caixas com coroas. Mas hoje, à meia-noite, tudo quieto, tudo sombrio.
João confere o relógio e diz para si mesmo que é hora de parar. Desliga sua velha Singer e a cobre com a capa de veludo azul. Tira seus óculos pesados e os guarda no bolso da camisa enquanto olha ao redor procurando algo fora do lugar. Uma caixa de papelão pousada sobre um banco lhe chama a atenção. Ele arruma seus suspensórios e anda até o cubo, um papel pousado em cima com fita adesiva conta o motivo.
Uma devolução.
Nem sempre acontece, mas pode ocorrer do casamento ser desmarcado por vários motivos, traição e falta de dinheiro para pagar pelo vestido são os mais recorrentes. Porém morte é o mais perturbador. João lê a ficha indicando que a noiva morreu durante um assalto há apenas dois dias do casório, a família, já traumatizada, não quis ficar com o vestido e o devolveu. O costureiro compreende o quão difícil deve ser para a família uma tragédia como essa.
Pode parecer aético, mas é uma verdade: O vestido será vendido para outra pessoa. Um vestido tão bonito assim, parado em uma caixa, não serve de muita coisa. É só questão de aparecer a noiva certa e apenas alguns ajustes e logo tudo estará novo em folha. Antônio levanta a peça pelos ombros e contempla o belo trabalho realizado, o cetim branco com as rendas em torno da cintura para garantir uma silhueta primorosa. Subitamente o contorno de um rosto passa pela saia como se alguém tivesse o vestindo. João assustado, joga longe a roupa. Uma gota de suor desce pela sua fronte e pousa na sobrancelha. O homem leva suas mãos trêmulas à boca enquanto respira ofegante com os olhos fixos no vestido caído.
O costureiro não se acalma, mas encontra conforto em sua racionalidade. É claro que foi um truque aplicado pela sua mente. Ele acabara de ler a história triste da moça que morreu antes do casamento. Mesmo assim, por precaução, João segue pé ante pé até o vestido, o agarrou com pressa e enfiou na caixa de qualquer jeito, tampou-a e a largou.
Ao sair desligou as luzes e deu uma última olhada para a caixa. Trancou a porta.
João Carlos demorou para conseguir abrir os olhos, quando o fez percebeu que o sol estava no alto. Em tantos anos de trabalho nunca se atrasara, talvez a noite mal-dormida, talvez a história da noiva impedida pela morte, porém hoje foi a primeira vez.
Sorte sua que a gerente de produção tem as chaves, aliás ela mesma o recepcionou com uma cara de surpresa. João acenou um bom dia e logo esquadrinhou o galpão a procura da caixa com o vestido. Nada achou.
— Cadê o vestido? — Perguntou João
— Qual vestido João?
— Aquele que a mulher... morreu.
A gerente puxou os arquivos e achou um recibo de venda. O vestido já tinha uma dona, que pagou em dinheiro e levou embora a vestimenta. O costureiro deu um suspiro aliviado. Aos poucos João voltou ao seu ritmo de trabalho.
Com as agulhas trabalhando freneticamente, João se perde no tempo e não percebe que está sozinho novamente. Apenas acorda com o barulho da campainha ecoando pelo galpão. O costureiro se levanta e segue até a porta, do outro lado um policial e uma viatura em cima da calçada com a porta aberta, no banco do passageiro uma caixa de papelão.


João Carlos de Oliveira Pacheco. 50 anos, casado, uma filha, profissão costureiro. Essas foram umas das poucas verdades contadas no boletim de ocorrência. O fato do vestido ter pertencido à outra jovem foi simplesmente ignorado pelo costureiro, ao final foi liberado junto com a caixa.

No caminho de casa, João olhava para a caixa preocupado com que faria, não poderia ser coincidência o que acontecera, seria melhor ele perder o dinheiro do que mais uma vida inocente. Em cima de um guarda-roupa pousou a caixa de papelão esperando o destino que João lhe daria.
No outro dia o costureiro chegou cedo no trabalho e logo sua máquina voltou a funcionar à todo vapor. Assim foi até João receber um telefonema de uma vizinha dizendo que havia algo errado em sua casa. Sem pensar duas vezes ele pega as chaves do carro e ruma rápido com destino certo. Passa semáforos vermelhos e cruzamentos perigosos até conseguir alcançar sua residência. A chave gira a maçaneta. A porta abre. O susto toma conta.
O policial fica pensativo. Não é possível tirar a garota sem fazer barulho. Na outra sala João não consegue parar de chorar, sua mulher chega em casa e se depara com seu marido em frangalhos, soluçando, tentando explicar em vão o que acontecera com sua filha.
O oficial tira um canivete do bolso e sobe em uma cadeira, fará barulho com certeza, porém não há meio de descer o corpo da garota de outra forma.
João não consegue falar, mas aponta em direção à cozinha. Sua esposa segue aflita e entra no exato momento que o policial consegue serrar a corda na qual a garota se enforcara. O corpo com um vestido de noiva cai pesadamente no chão fazendo um baque surdo. Na outra sala João chora.

FIM

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Nasci em Osasco. Estudei no Misericórdia, Fernão Dias e na UNIFIEO. Aprendi muito na escola e aprendi muito mais vivendo. Já fui estagiário de Analista de Sistemas na CESTESB e Relações Públicas na SMADS. Trabalhei em loja de RPG, Refrigeração, Jornal e com Internet. Hoje sou comerciário e escritor nas minhas poucas horas vagas.
Ingressei na literatura cedo, apredendo a ler com 5 anos. Comecei a escrever quando criei o site Biblioteca dos Vampiros, porém apenas em agosto de 2009 comecei a escrever com regularidade "postando" um conto novo toda semana. Foi também neste ano no qual participei de minha primeira antologia: "Metamorfose: a Fúria dos Lobisomens".
Acredito que a leitura é o primeiro passo para um país melhor. Ajudar na literatura de sua pátria é ajudar no crescimento de seu povo.

Site oficial: http://www.pedromoreno.com.br/

2 comentários:

  1. Uau... narrativa densa, suspense aflorando por todos os cantos, e um final para fechar com chave de ouro!

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  2. O Moreno é um belo narrador que conduz a trama com mão segura.

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