quarta-feira, 9 de junho de 2010

Contista Convidado: Midu Gorini

Irônico, bizarro e divertido, Gorini em Terror no Cemitério trata, dentre outros temas, dos efeitos da ignorância e fanatismo religioso com humor ácido e... bom, ninguém melhor que o próprio autor para falar sobre o conto, mas vou deixar para o final.



TERROR NO CEMITÉRIO


Por Midu Gorini

Exatamente quatorze dias depois do taxista Pedro ter sido assaltado e atingido por um tiro no pescoço, ao meio dia, horário em que a sombra é mais curta, o mais longo dos erros do assaltante era enterrado ao lado de sua ex-esposa. Por vontade de seu filho Paulinho, que estava presente com sua eterna Bíblia embaixo do braço.
Ele viu cabisbaixo, todo o estardalhaço da imprensa e os protestos dos taxistas, depois quando o caixão de Pedro desceu à cova, Paulinho aproximou-se dos coveiros, pediu para eles se afastarem e se ajoelhou, junto à cova, pegou um monte de terra com a mão direita e jogou sobre o caixão.
Em seguida ergueu os braços, com a Bíblia na mão esquerda e falou para todo mundo escutar: - Amigos, Mateus, 6: 22-23:3 "A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso...".
Não concluindo essa passagem bíblica, ele foi direto para Mateus, 5:29:3 -"Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno".
Para terminar e agradecer a presença de todos os amigos citou ainda, o apostolo Marcos, 9:47 -"Se o teu olho é ocasião de escândalo para você, arranque-o. É melhor você entrar no Reino de Deus com um olho só, do que ter os dois olhos jogados no inferno, onde o seu verme nunca morre e o seu fogo nunca se apaga".
Paulinho abaixa os dois braços, coloca a Bíblia no chão, ao seu lado, e se inclina para frente, fazendo uma reverência a cova, como os mulçumanos a fazem para Alá, ajoelhados no chão das mesquitas e com as mãos arranca o seu olho direito do globo ocular.
Soltando um grande grito de dor, se levanta em estado de choque, com o olho pendurado no rosto, preso à face apenas pelo nervo óptico, o terror e a histeria dos presentes são generalizados, menos dos repórteres fotográficos, que documentavam, a auto-enucleação do pobre rapaz.
Corri em direção a ele para socorrê-lo, e com a ajuda de um dos coveiros, colocamos Paulinho dentro do carro de um dos presentes, um senhor de meia idade, que nos levou até o hospital mais próximo.
No caminho, Paulinho disse para mim, com um misto de euforia e agonia pela de dor, “Deus queria que fosse assim, os meus pais queriam muito que eu trabalhasse, mas eu nunca trabalhei, nunca fiz nada para ajudá-los. Não deixe que joguem o meu olho fora, pois quero guardá-lo para sempre, como um pedido de perdão, a eles, como Deus me ordenou, antes do enterro”, em seguida entrou em uma espécie de torpor silencioso.
Chegando ao hospital ele é imediatamente socorrido pelos enfermeiros e levado ao centro cirúrgico, antes, porém eu pedi a um deles que não jogassem o olho fora de maneira alguma.
De manhã os jornais estampavam, em sua primeira página, a foto de Paulinho, com seu olho preso à face, somente pelo nervo óptico, as reportagens relatavam que ele tinha sido operado, para a extirpação do olho e posteriormente colocariam uma prótese de vidro no local.
Entrevistaram o médico oftalmologista que relatou, “No momento da minha avaliação clínica inicial. O paciente apresentava-se francamente psicótico, dizia estar obedecendo "às ordens de Deus", repetia palavras isoladas como "salvação" e "paraíso". Além de manifestar alterações sensoriais e perceptivas compatíveis com alucinações auditivas, mas como organicamente ele estava bem e não apresentava nenhum risco cirúrgico, decidi operá-lo, para a remoção do olho, que infelizmente não pude salvar.”
Paulinho foi se recuperando bem da cirurgia e acabou sendo transferido para o hospital psiquiátrico. Ele estava feliz com seu olho, guardado dentro de um vidro
com formol a 10% e se recusava terminantemente, a colocação de uma prótese de olho vidro.
Justificava a recusa aos médicos com a seguinte frase, “Tenho que fazer o que a voz de Deus manda, senão coisas piores podem ocorrer comigo”.
Segundo os mesmos médicos o prognóstico da psicose de Paulinho era terrível e só havia uma certeza quanto ao seu quadro clínico, ele ficaria internado por muito tempo, com grande chance de nunca receber alta, pois certamente se mutilaria de novo.
Quanto a mim nada de novo, eterno eu retornei para o inferno, deixando para trás a minha vil voz viril nos ouvidos de Paulinho.

FIM


“Os meus contos abordam a psicopatologia comportamental humana, portanto não são temas leves, são destinados aos alunos de Psicologia e Direito, mas são temas que afligem milhares de pessoas. Como neste conto “Terror no cemitério”, o Brasil possui uma média anual de oito auto-enucleações, provocadas pelo fanatismo religioso associado à psicose auditiva e neuroses. Onde a pessoa acredita piamente que fala com Deus. Uma das terapias para se evitar a auto-enucleação, em minha opinião de Biomédico Patologista Clínico e professor de Patologia é fazer o paciente acreditar que fala com o demônio e não com Deus e a partir daí direcionar uma psicoterapia associada a medicamentos. De modo geral são pacientes de difícil tratamento e cura completa. Os meus poemas são de temas mais leves, graças à influência romântica da Rosa, enfim sou uma pessoa que gosta muito de ler e escrever.”

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Romildo é o meu nome, Midu o meu apelido, tenho a felicidade de ter a poetisa Rosa Righetto como mulher, ao meu lado de mãos dadas, além de ter quatro hobbies na vida.
A Biomedicina, o Xadrez, o Atletismo de meio-fundo, e escrever sobre todos os temas, são palavras lavradas sem a pretensão de agradar fulano, cicrano ou beltrano. Sem as pretensões literárias, de Neruda, Bocage, Drummond, Pessoa ou da vizinha ao lado, escritora poetisa.

4 comentários:

  1. Um relato contundente apoiado por uma narrativa muito bem construída, que nos faz fluir rapidamente pelo texto.
    Ramon, parabéns pela escolha. E ao Midu, parabéns pelo texto!

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  2. O Midu é um dos bons escritores que tenho lido no Recanto e dos poucos com estilo e marcas bem características. Seu humor é inconfundível.

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  3. Muito bom ter participado deste sítio literário, com um conto de minha autoria, obrigado Ramon pelo convite, Poleto pelo comentário, Midu Gorini

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  4. Eu é que agradeço pelo prazer da leitura.

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