domingo, 30 de maio de 2010

Contista Convidado: Xande Ribeiro

Em tempos de sanguinolência excessiva e truculência literária é muito prazeiroso ler um conto como Uma Pequena Ponte. Utilizando a ponte como símbolo e metáfora visual para compreensão e esperança, o autor, por meio de um tom essencialmente oral e diálogos espontâneos cria uma bela fábula de charme e atmosfera regionalista e romantismo sombrio.


Uma Pequena Ponte


Por Xande Ribeiro

Uma pequena ponte, sim, uma pequena ponte separava as duas vilas, e claro, ela não era suficiente para conter a animosidade de seus cidadãos irmãos, já que uma coisa inominável aconteceu entre eles. Hulda a filha mais nova da família Nielsen pertencia aos da banda de lá, e Lars o mais moço dos Bergs, aos da banda de cá.

Eles se conheceram meio que a contra gosto, pois o pequeno Lars adorava pescar, e a menina Hulda adorava maçãs. Enquanto Lars intentou passar a ponte para pescar no lago dos da banda de lá, Hulda vinha pelo outro extremo da ponte roubar maçãs dos da banda de cá. A ponte era então o elo entre os dois displicentes.

- Hei, você não pode atravessar a ponte!
- Mesmo? E o que é que você está intentando fazer?
- Venha que eu explico! Disse isso acenando.
- Ora, venha você aqui!
- Vamos os dois, está bem? Assim, se nos virem, não acharão que estamos contrariando as leis.
- Está bem!

Eles se aproximaram e Hulda estendeu a mão para ser beijada por Lars. E Lars a tomou e a sacudiu como se ela quisesse um aperto de mão.
Hulda o olhou com um olhar inquisidor e pensou consigo.

- Grosseirão!

E Lars a olhou e pensou:

- Aperto de mão suave... Hum, a mão dela cheira bem!
- E então menina, vai ou não vai me dizer seu nome?
- Ora, diga você primeiro!
- Sou Lars Berg.
- Encantada, sou Hulda Nielsen.
- Nossa, sua família foi quem começou a briga!
- Que mentiroso, sua família foi quem nos roubou!
- Ora, abusada, como se atreve a me ofender?
- Vejo que você é realmente um grosseirão!
- E o que é isso?

Hulda sorriu descontroladamente, enquanto Lars, não contrariando as expectativas, também.

- Lars, vamos esquecer que somos inimigos, está bem?
- Por que pede isso? Meu pai me mata se eu esquecer quem eu sou!
- Lars, você quer ser meu amigo?
- Acho que sim, vamos fazer uma combinação então!
- E o que seria essa sua combinação?
- Você finge que não me vê indo para a banda de lá.
- E eu finjo que não vejo que você entrou na banda de cá, que acha?
- Acho perfeito, mas quero saber, o que faz querer passar a ponte?
- Ora, os peixes!
- Ah, danadinho, o lago!
- Sim, os melhores peixes estão no lago de lá.
- E você, diga!
- As maçãs.
- Hum, as maçãs são melhores da banda de cá.
- E como sabe? Já comeu as maças de lá.
- Já!
- Mas que traquinas! Você já foi para lá quantas vezes?
- Num posso contar! E sorriu.
- Essa é a minha primeira vez.
- Então se sirva, e volte quando quiser, mas não conte a ninguém. Está bem?
- Trato feito!

Todos os dias eles se esgueiravam até a ponte, a verdade é que faziam de tudo para não serem vistos. Quando avistavam alguém, não se arriscavam. Tinham até um esquema, Lars tocava uma gaita para dizer que estava tudo bem.

Eles sempre se cumprimentavam no meio da ponte e seguiam caminho, ele para o lago e ela para as suas maçãs desejadas.

O tempo foi passando e o interesse pelas maçãs e pelos peixes foi diminuindo e o motivo que os guiava era outro. Engataram um namoro secreto que os fazia tremer de felicidade quando estavam juntos.

Como Lars já era um homem e Hulda uma moça formosa à vista, os pretendentes não faltavam para ambos, mas eles sempre davam desculpas esfarrapadas para os rompantes dos enamorados. Hulda deixava transparecer que estava apaixonada por alguém e que estava comprometida. E Lars, bem, o Lars sempre dava uns amassos nas meninas, para que todos se convencessem de que estava apaixonado, mas logo acabava com tudo e voltava para os braços de Hulda.

O cerco foi se fechando para os dois, pois os pais começaram a desconfiar que havia algo de errado. Hulda vivia dando motivos para sair de casa à tarde e Lars sempre dava um jeito de terminar seus serviços o mais rápido possível para a sua fugida diária.

O irmão de Lars um dia o seguiu, e por sorte, ou azar, naquele dia Hulda não pôde sair de casa, pois a mãe a encheu de inúmeras tarefas.
Como ele chegou próximo da ponte, o irmão o abordou dizendo:

- O que faz aqui?
- Ora, nada! Muito me admira você perguntar o que eu faço aqui? Você é quem deveria dizer o que faz aqui, seu moleque de meia tigela!
- A mãe tá de olho no senhorzinho.
- A mãe não tá de olho nada, seu pivete, você tá!
- Você tá pegando alguma moça da vila de lá?
- Que moleque abestalhado!
- Eu vim pegar maçãs, abestalhado!
- Até parece que vou acreditar!
- Não sai por aí contando mentira, moleque, senão te encho de safanão!
- Pode deixar que num conto, mas se cuida, afrescalhado!
- Ô moleque safado, vem cá, que eu lhe enfio a mão na cara!
- Tenta, afrescalhado!

E saiu correndo para os braços da mãe.

- Onde você tava, Lars?
- Tava caçando maçã!
- Você não tá tentando ir para a banda de lá, tá?
- Magina, mãe, eu ir para a banda de lá? E o que tem lá que não tem cá?
- Fica esperto, seu moço, senão você acaba se metendo em encrenca.
- Não se preocupa véia, sei me cuidar!
- Tá bom, vai se lavar, que a janta tá na mesa.

Lars no outro dia foi à ponte e para a sua felicidade encontrou Hulda.

- Moça, o que aconteceu?
- Minha mãe, acha que estou aprontando alguma coisa.
- A minha botou até o pivete do meu irmão para me vigiar.
- Lars, precisamos ter cuidado!
- Sim, minha flor!
- Que acha da gente se encontrar à meia noite?
- Vou fazer o possível!
- Então te espero, minha flor!
- Está bem!

Lá pela meia noite, Lars chegou à ponte, e lá estava a sua Hulda, formosa como sempre.

- Oi querido, por que demorou?
- Nossa, demorei tanto assim? Deve de ter passado uns trinta minutos. É que o praga do menino demorou a dormir!
- Seu irmão?
- Sim, toda vez que eu ensaiava abrir a janela, ele respirava fundo. Até que adormeceu pra valer.

Ao longe estava o moleque avistando tudo, ele havia fingido o sono para pegar o irmão com a mão na massa. De mansinho ele se achegou, e então gritou!

- Embusteiro! Você tá de coisa com a menina dos Nielsen?
- Henrike, volte aqui! Não conte aos nossos pais!
- Então Lars fez algo inconcebível, pegou uma pedra e atirou no irmão.

A pedra atingiu a nuca do menino, que morreu em poucos instantes.

- Meu Deus, o que você fez?
- Eu só queria pará-lo, ele está bem?
- Lars, ele está morto?
- O quê?
- Ele não está respirando, está morto!

Hulda pôs-se a chorar descontrolada, enquanto Lars olhava para o irmão e grunhia de tanta dor que sentia em seu coração.

- O que eu fiz, matei meu irmão, matei meu irmão!
- Calma, meu amor, não foi sua culpa!
- Saia daqui, abominável! Você, sua bruxa, me enfeitiçou! Eu não quero mais vê-la.
- Lars, mas eu o amo!
- Saia já daqui, maldita! Você me atiçou, a culpa foi sua!
- Lars, porque está me tratando assim?

Ele a esbofeteou.

Lars olhou para ela arrependido, e disse:

- Desculpe, não foi sua culpa, me desculpe.

Hulda saiu correndo e não olhou para trás.

Então o pai de Lars que vinha de uma caçada naquele dia, chegou a cavalo e viu os dois na ponte.

- O que acha que está fazendo, seu tolo?
- Pai, eu sinto muito! Gritou em prantos.
- Henrike? O que você fez Lars?
- Eu o matei! Mas foi um acidente.

O pai o esbofeteou e gritou:

- Maldito! Matou meu filho, maldito! Saia daqui, seu desgraçado, não o quero mais na minha casa, vá para junto daqueles abomináveis.
- Mas Pai, eu não tive culpa.

...

A filha chegou a casa e estava com o rosto vermelho da bofetada.

- O que estava fazendo fora de casa a essa hora?
- Mãe, eu... Eu não posso...
- E essa marca de mão na cara?
- Hulda, conte-nos, o que aconteceu?
- Mãe, não aconteceu nada!
- Você esteve com um homem, menina?
- Pai, eu...
- Maldita, como se atreveu? Manchar minha casa!
- Pegue suas coisas e suma daqui!
- Pai, por favor, não!
- Maldita, abominável, suma daqui, sua perdida!

O pai de Lars levou Henrike consigo e deixou Lars soluçando de dor, enquanto Hulda corria para a ponte.

- Lars!

Lars havia feito um laço e colocado em seu pescoço, e na hora em que Hulda entrou na ponte. Ele a olhou por alguns instantes, com um olhar triste e desalentado, nada gesticulou, se despediu com os olhos e pulou.

- Lars, não, meu amor!

Já era tarde, Lars quebrara o pescoço na queda.

- Lars, meu amor? Por que fez isso?

Hulda, perdida e sem esperanças, desenlaçou a corda e deixou seu amor cair no rio.

Então olhou para a Lua que estava viva e perfeita no céu, despediu-se do mundo, pulou nas águas frias; ela enrolou-se na corda e no amor de sua vida e morreu afogada.

Os habitantes da banda de lá e de cá sofreram a perda daquelas duas almas descrentes, pois jamais encontrariam a paz. Os pais de ambos se reuniram uma última vez, nada disseram, mas destruíram a ponte que ligava as duas vilas. Eles não se falaram, mas a dor e o remorso podiam ser vistos marcados em seus rostos.

E daquele local, ninguém mais se aproxima, pois dizem que à meia noite, uma cena estranha acontece por cima daquelas águas. Um homem anda por uma ponte inexistente chamando por uma jovem chamada Hulda e uma mulher anda pela mesma ponte gritando o nome de Lars, eles se avistam e correm um ao encontro do outro, e quando estão prestes a se tocar, desaparecem no vazio.

FIM

4 comentários:

  1. Uau! Um conto construído de forma bem despretenciosa, com um resultado bem agradável! Ramon, você está virando um excelente caçador de talentos! :)

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  2. rsrsrs gosto da maneira natural que o Xande conduz a narrativa. Me lembra vagamente os contos do Manly Wade Wellmann.

    Abraço!

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  3. Ramon, obrigado pelo convite, sinto-me honrado por participar do seu espaço. Gosto também de sua leitura sobre os meus textos, você depreende alguns significados que eu jamais considerei sobre eles. Acho fantástico seu despreendimento em ler outros autores, você os lê como quem busca algo, dando a importância não só a obra em si, mas o trabalho do autor. Ah se os críticos literários e as Editoras tivessem esse caráter ao se depararem com um texto, muitos talentos sairiam da obscuridade... Obrigado pelo atenção, fico envaidecido pelo convite pois o considero um autor muito profundo e seus textos têm muita substância, acabei de ler o texto Um quase monólogo entre uma assombração e o reflexo assombrado, ficou soberbo! Sua veia literária é extramemente original, tem muito a acrescentar a cena literária. Um grande abraço.

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  4. >>>>Gosto também de sua leitura sobre os meus textos, você depreende alguns significados >>>>>que eu jamais considerei sobre eles.
    O bom texto sempre permite essa leitura. Da parte do autor pode ser um processo inconsciente (como ficcionista eu também já fui interpretado de maneiras surpreendentes que acabou me dando uma outra perspectiva sobre o meu texto) mas os símbolos e metáforas estão lá.



    >>>Acho fantástico seu despreendimento em ler outros autores, você os lê como quem busca >>>algo, dando a importância não só a obra em si, mas o trabalho do autor.

    O prazer da leitura está ligado diretamente ao prazer da escrita, e às vezes isso transparece.


    >>>Ah se os críticos literários e as Editoras tivessem esse caráter ao se depararem com um >>>texto, muitos talentos sairiam da obscuridade...

    Pois é...infelizmente grandes editoras são movidas puramente por necessidades mercadológicas, se eles se preocupam com qualquer potencial é com o de mercado, independente da qualidade. A Stephany Meyer é a culminação desse estado catastrófico.

    >>Obrigado pelo atenção, fico envaidecido pelo convite pois o considero um autor muito >>profundo e seus textos têm muita substância,
    Opa, obrigado!


    >>>Um quase monólogo entre uma assombração e o reflexo assombrado, ficou soberbo!

    Eu gostei bastante do resultado final (:

    >>>>Sua veia literária é extramemente original, tem muito a acrescentar a cena literária. Um grande abraço.

    Estou tentando, tentando... rsrsrsr

    Abraço

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