terça-feira, 18 de maio de 2010

A Caminho-Conto

Por Ramon Bacelar
Com o vagaroso levantar das pálbebras, deu-se início ao misterioso processo de retorno a consciência.Olhou para os lados e imediatamente sentiu-se asfixiado pelo silêncio opressor e pela escuridão que o cercava como um cardume de piranhas à espera de sua presa. Respirou fundo e por um breve instante encontrou conforto e alívio no pequeno casulo de claridade que emanava da sebosa lâmpada do criado mudo. Mas o ar estava ácido, pesado e lhe penetrava nos pulmões com uma aspereza que lhe fez recordar a voz rouca do maquinista que lhe falou do insignificante desvio e da pontualidade da chegada. Mas não se lembrava de quando, onde nem porquê; não recordava ao menos por quanto tempo tinha ficado inconsciente.
-Boa tarde
Como que por um misterioso ritual mágico, em algum ponto daquele universo de sombras e escuridão, uma voz grave porém serena lhe dirigiu a palavra, e em meio ao processo de reconhecimento, eis que se revelou com uma claridade cristalina, a consciência de que o negrume que o cercava não brotava de uma fonte natural: que insólita encarnação Hawksmooreana teria projetado essa estranha tragédia arquitetônica? Esse monumento de sombras? Quais desusadas matérias primas foram utilizadas como inspiração para uma imaginação ambiciosa e luciferina: transmutar o dia em noite!
Segundos? Minutos? Horas? Dias? Antecipando a sossegada voz, vislumbrou o sereno rosto com sua risada velada e escutou ruídos crespos e metálicos como de instrumentos de carpintaria ou ferramentas cirúrgicas.
-Onde estou? Para onde estão me levando?-A voz saiu opaca e embargada.
-Você está... a caminho.
Foi a última coisa que escutou antes do ribombar do trovão e do som purificador da tempestade.
                                                            FIM

Um comentário: