domingo, 11 de julho de 2010

Contista convidado: George dos Santos Pacheco

Ler Um Presente Para Elpídio é como entrar em um veículo desconhecido sem saber o destino final. Neste causo macabro, George dos Santos Pacheco lentamente evolve o leitor com seu estilo oral e direto e inadvertidamente nos arremessa numa espiral de incerteza e escuridão.Sr Elpídio, velinho simpático e boa praça... eu não queria estar em sua pele (:


UM PRESENTE PARA ELPÍDIO


Por George dos Santos Pacheco


O sol ia alto naquele dia. O calor causticante não perdoava quem quer que fosse. As folhas das plantas estavam murchas, e murchos também pareciam estar os outros seres viventes. Alguns cachorros descansavam à sombra, sob as marquises, com suas línguas gotejantes penduradas no canto da boca. As crianças subiam a rua com suas pesadas mochilas e bochechas coradas. Algumas mulheres prendiam suas roupas ao varal. Era bom aproveitar enquanto a chuva não vinha. Os velhos… Ah os velhos! Alguns estavam sentados às praças, ou jogando milhos aos pombos, ou jogando damas com seus companheiros. Nem um desses casos era o de Elpídio.
Elpídio era um senhor que parecia ter uns cem anos, um dos mais velhos de todo o lugarejo. Mas nem ele mesmo sabia exatamente sua idade. Ficava o dia todo caminhando com dificuldade por aí, apoiando-se em sua bengala. Às vezes ficava na praça, ora assistindo aos jogos de seus amigos, ora conversando com alguém que atirava alimento para as aves. Na porta de um bar qualquer, chutava um cachorro que dormia tranqüilo, abanando a orelha para afugentar as moscas. Dali assistia as crianças retornarem da escola. Um mero espectador. Quisera ele ter tido netos, um cachorro ou simplesmente ter aprendido a jogar damas.
– Feliz aniversário Sr. Elpídio! – disse um vizinho. Ele respondeu com um resmungo qualquer. Para ele não havia motivo para comemorar.
Já havia tentado o suicídio várias vezes. Numa ocasião, amarrou a corda de sisal em um galho de um abacateiro, pôs o pescoço no laço e saltou. Depois de muito se debater e sufocar, sua vista turvou-se. Pensou que seria desta vez, mas… O galho não resistiu ao seu peso e quebrou. Lá se foram ao chão Elpídio, a corda e a madeira que antes de chegar ao solo já tinha atingido a cabeça do velho. Noutra vez, atravessou na frente de um ônibus no centro da cidade. O homem sentiu um estalo na cabeça e desmaiou. Acordou no hospital. Foi socorrido e não sofrera nada além de um osso quebrado… Na mão! Uma falange.
Sua ânsia pela morte era justificada pela vida que levava. Não havia conseguido nada de bom e ela parecia ser um grande sofrimento. Devia a tudo e a todos e sua aposentadoria mal dava para se alimentar. Se ficava o dia inteiro fora de casa, era porque sua permanência dentro daquelas paredes era um martírio. Na verdade, seus maiores problemas eram motivo tanto para matar-se como perambular ao léu. Surgiram há muitos anos…
– Mais um ano, hein Sr. Elpídio? Feliz aniversário! – disse outra pessoa, com uma entonação na voz como se falasse a um bebê. Isso era o mais ridículo de se envelhecer. Na maioria das vezes se é tratado como um recém nascido. Outra vez o velho rabugento nada respondeu.
Por trás daquela máscara de velhinho do interior, pacato, havia outra pessoa. Elpídio nunca foi um bom homem. Desde cedo aprendeu a roubar. Os artigos eram dos mais variados: Um lápis na escola, as frutas no quintal do vizinho, algumas moedas de sua mãe, o troco do dono do bar… Viciou-se nisso. Buscava sempre uma coisa de valor maior.
A primeira morte foi aos treze anos. Banhava-se à tardinha com um colega num riacho próximo de casa. Num mergulho do amigo, um grande volume de água atingiu seu rosto. Ficou furioso. Segurou a cabeça do outro imersa, até que ele parasse de se agitar. Soltou o corpo depois disso, e deixou que a corrente o levasse. Procuraram a criança por dias. Nunca ninguém desconfiou dele. Sua única testemunha tinha ido por água abaixo. Viciou-se nisso.
Em certa época, algumas garotas do bairro sumiram misteriosamente. Elpídio sempre foi um belo jovem e não era difícil atraí-las para a mata ou lugares ermos. De posse de uma faca cortava o pescoço da vítima e banhava-se com o sangue que esguichava em jatos intermitentes. Acreditava que o líquido quente e vermelho o deixaria eternamente jovem… Foi assim por anos a fio. Uma das mulheres, antes de morrer, olhou-o com ira. Suas conjuntivas estavam raiadas de vermelho, devido à força que fizera para desprender-se do malfeitor.
– Vais me pagar desgraçado! – disse ela quase sem forças.
Foi então que seus problemas surgiram.
Não havia nada demais em sua rotina diária. Depois do trabalho, colocava uma boa roupa, tomava umas cervejas e lá pelas dez horas já estava deitado em sua cama, ressonando. Sua casa parecia serena… Nesta noite, quando o relógio de parede deu doze badaladas o inesperado aconteceu. Elpídio acordou com um choro insuportável. Esfregou os olhos e levantou, caminhando descalço em direção ao som. Afinal de onde viria? E quem era essa pessoa que estava aos prantos? Parecia ser de dentro de sua casa, mas ele morava sozinho… Então…
Chegando à cozinha avistou uma moça com uma longa camisola branca, com as mãos no rosto, soluçando de tanto chorar. Ele não pensou em nada e se aproximou.
– Quem é você? – disse ele. As lágrimas da mulher tocaram fundo em seu espírito como nunca qualquer coisa tinha feito.
De repente a mulher saltou sobre ele. Sua face transmudou de angelical para monstruoso em questão de segundos. Seus dentes pontiagudos buscavam a carne de Elpídio que lutava com todas as suas forças para livrar-se. As unhas negras da criatura estavam fincadas em seu ombro e a dor era fora do comum. Sentia o líquido quente escorrer pelas suas costas e o embate parecia não ter fim. Ela grunhia coisas inaudíveis ou incapazes de serem entendidas e seu hálito pútrido dominava as narinas do homem, causando engulhos.
– Eu não disse que ia me pagar, peste! – esbravejou o monstro no corpo de uma mulher.
Elpídio tinha o corpo cheio de chagas que latejavam fortemente. Acordou no outro dia sem uma sequer. As dores, porém, continuavam. Todos os dias sua angústia era a mesma. À meia noite, doze badaladas eram a porta de entrada das almas que ele havia despachado para o além mundo. A cada dia, mais uma se juntava à mulher que o tinha atacado a primeira noite. Tornaram-se dezenas.
Para fugir de seu destino trancava a porta de seu quarto, mas isso de nada adiantava. Quebrou o relógio, mas isso também não tinha efeito. Mudou de casa, enforcou-se, atirou-se embaixo de carros… Nada parecia solucionar seu drama. E todo dia que passava, toda noite mal dormida, todo ano que surgia, parecia mais tenebroso. Por isso não comemorava mais nenhum aniversário. E nesse não seria diferente. Preparou-se para o encontro que ele desejava ser o último.
Sentou-se à beirada de sua cama. Exatamente no horário de costume, sombras se esgueiravam pelos cantos das paredes e surgiam por baixo dos móveis. As pessoas atravessavam as paredes ou abriam a porta, entrando no cômodo para fazer-lhe companhia. Algumas caminhavam agachadas ao teto como aranhas… Enquanto uns choravam, outros esbravejavam maldições para Elpídio. Se ameaçasse retrucar, atiravam-se sobre ele, arranhando e mordendo, arrancando-lhe pedaços de carne. Por um momento desvencilhou-se. Estava desesperado. Suas mãos enrugadas e trêmulas empunharam uma pequena faca cortando os pulsos. Tudo estaria terminado, mas para sua surpresa, não sangrou uma gota sequer.
– Ah… Então é este o presente que quer este ano? A morte? – disse uma das almas, gargalhando insanamente.
O velho então sentiu uma forte dor no peito. Curvou-se até o chão, babando e gemendo. Olhava suplicante para as almas que sorriam. Tinha os olhos marejados e estava ofegante. Sua vista foi escurecendo lentamente. Seu braço esquerdo tinha adormecido, bem como todas as extremidades de seu corpo. Deitou ao chão sem forças e sorrindo. Finalmente estava tudo acabado!
Abriu os olhos lentamente. Estava em uma assustadora e espessa escuridão. Percebeu que não respirava, não tinha mais necessidade disso. O frio parecia atingir-lhe os ossos e passou a mão na pele, para se aquecer, sentindo feridas purulentas que doíam mais do que antes. O cheiro de podre empesteava todo o ambiente. Ouviu gargalhadas que ecoavam distantes como em uma caverna de mármore.
– Ora Elpídio… Não achou que faltaríamos à sua festa, não é?
– Não! Por favor, não! – gritava ele, chorando, enquanto sentia seu corpo ser devorado por todos os lados.
– O teu presente somos nós. Feliz aniversário…

FIM

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George dos Santos Pacheco nasceu em Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro em 07 de outubro de 1981. Saudosista dos anos 80, geração a que pertence, sempre gostou de filmes, música e livros. Apesar disso não lia tanto, tornando-se um hábito quando se casou em 2003, pois sua esposa também é apaixonada por livros. Assistia a uma entrevista em um canal de TV, num programa de debates. Tema: Literatura. “Todo mundo é capaz de escrever um livro” – diziam. –Eu? George Pacheco escrevendo um livro? – pensava. Sim, é possível. Começou a escrever e não parou mais. Hoje se considera um escritor compulsivo. Faz parte da nova safra de escritores do país, fazendo sua estréia com O Fantasma do Mare Dei, a ser lançado ainda em 2010, pela Editora Multifoco. Participa também da Coletânea de Contos Policiais Assassinos S/A Vol. II. Publica contos e crônicas em diversos sites, inclusive em seu blog, revistapa-checo.blogspot.com. Contatos pelo e-mail pacheconetuno@oi.com.br.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Contista Convidado: Midu Gorini

Irônico, bizarro e divertido, Gorini em Terror no Cemitério trata, dentre outros temas, dos efeitos da ignorância e fanatismo religioso com humor ácido e... bom, ninguém melhor que o próprio autor para falar sobre o conto, mas vou deixar para o final.



TERROR NO CEMITÉRIO


Por Midu Gorini

Exatamente quatorze dias depois do taxista Pedro ter sido assaltado e atingido por um tiro no pescoço, ao meio dia, horário em que a sombra é mais curta, o mais longo dos erros do assaltante era enterrado ao lado de sua ex-esposa. Por vontade de seu filho Paulinho, que estava presente com sua eterna Bíblia embaixo do braço.
Ele viu cabisbaixo, todo o estardalhaço da imprensa e os protestos dos taxistas, depois quando o caixão de Pedro desceu à cova, Paulinho aproximou-se dos coveiros, pediu para eles se afastarem e se ajoelhou, junto à cova, pegou um monte de terra com a mão direita e jogou sobre o caixão.
Em seguida ergueu os braços, com a Bíblia na mão esquerda e falou para todo mundo escutar: - Amigos, Mateus, 6: 22-23:3 "A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso...".
Não concluindo essa passagem bíblica, ele foi direto para Mateus, 5:29:3 -"Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno".
Para terminar e agradecer a presença de todos os amigos citou ainda, o apostolo Marcos, 9:47 -"Se o teu olho é ocasião de escândalo para você, arranque-o. É melhor você entrar no Reino de Deus com um olho só, do que ter os dois olhos jogados no inferno, onde o seu verme nunca morre e o seu fogo nunca se apaga".
Paulinho abaixa os dois braços, coloca a Bíblia no chão, ao seu lado, e se inclina para frente, fazendo uma reverência a cova, como os mulçumanos a fazem para Alá, ajoelhados no chão das mesquitas e com as mãos arranca o seu olho direito do globo ocular.
Soltando um grande grito de dor, se levanta em estado de choque, com o olho pendurado no rosto, preso à face apenas pelo nervo óptico, o terror e a histeria dos presentes são generalizados, menos dos repórteres fotográficos, que documentavam, a auto-enucleação do pobre rapaz.
Corri em direção a ele para socorrê-lo, e com a ajuda de um dos coveiros, colocamos Paulinho dentro do carro de um dos presentes, um senhor de meia idade, que nos levou até o hospital mais próximo.
No caminho, Paulinho disse para mim, com um misto de euforia e agonia pela de dor, “Deus queria que fosse assim, os meus pais queriam muito que eu trabalhasse, mas eu nunca trabalhei, nunca fiz nada para ajudá-los. Não deixe que joguem o meu olho fora, pois quero guardá-lo para sempre, como um pedido de perdão, a eles, como Deus me ordenou, antes do enterro”, em seguida entrou em uma espécie de torpor silencioso.
Chegando ao hospital ele é imediatamente socorrido pelos enfermeiros e levado ao centro cirúrgico, antes, porém eu pedi a um deles que não jogassem o olho fora de maneira alguma.
De manhã os jornais estampavam, em sua primeira página, a foto de Paulinho, com seu olho preso à face, somente pelo nervo óptico, as reportagens relatavam que ele tinha sido operado, para a extirpação do olho e posteriormente colocariam uma prótese de vidro no local.
Entrevistaram o médico oftalmologista que relatou, “No momento da minha avaliação clínica inicial. O paciente apresentava-se francamente psicótico, dizia estar obedecendo "às ordens de Deus", repetia palavras isoladas como "salvação" e "paraíso". Além de manifestar alterações sensoriais e perceptivas compatíveis com alucinações auditivas, mas como organicamente ele estava bem e não apresentava nenhum risco cirúrgico, decidi operá-lo, para a remoção do olho, que infelizmente não pude salvar.”
Paulinho foi se recuperando bem da cirurgia e acabou sendo transferido para o hospital psiquiátrico. Ele estava feliz com seu olho, guardado dentro de um vidro
com formol a 10% e se recusava terminantemente, a colocação de uma prótese de olho vidro.
Justificava a recusa aos médicos com a seguinte frase, “Tenho que fazer o que a voz de Deus manda, senão coisas piores podem ocorrer comigo”.
Segundo os mesmos médicos o prognóstico da psicose de Paulinho era terrível e só havia uma certeza quanto ao seu quadro clínico, ele ficaria internado por muito tempo, com grande chance de nunca receber alta, pois certamente se mutilaria de novo.
Quanto a mim nada de novo, eterno eu retornei para o inferno, deixando para trás a minha vil voz viril nos ouvidos de Paulinho.

FIM


“Os meus contos abordam a psicopatologia comportamental humana, portanto não são temas leves, são destinados aos alunos de Psicologia e Direito, mas são temas que afligem milhares de pessoas. Como neste conto “Terror no cemitério”, o Brasil possui uma média anual de oito auto-enucleações, provocadas pelo fanatismo religioso associado à psicose auditiva e neuroses. Onde a pessoa acredita piamente que fala com Deus. Uma das terapias para se evitar a auto-enucleação, em minha opinião de Biomédico Patologista Clínico e professor de Patologia é fazer o paciente acreditar que fala com o demônio e não com Deus e a partir daí direcionar uma psicoterapia associada a medicamentos. De modo geral são pacientes de difícil tratamento e cura completa. Os meus poemas são de temas mais leves, graças à influência romântica da Rosa, enfim sou uma pessoa que gosta muito de ler e escrever.”

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Romildo é o meu nome, Midu o meu apelido, tenho a felicidade de ter a poetisa Rosa Righetto como mulher, ao meu lado de mãos dadas, além de ter quatro hobbies na vida.
A Biomedicina, o Xadrez, o Atletismo de meio-fundo, e escrever sobre todos os temas, são palavras lavradas sem a pretensão de agradar fulano, cicrano ou beltrano. Sem as pretensões literárias, de Neruda, Bocage, Drummond, Pessoa ou da vizinha ao lado, escritora poetisa.

sábado, 5 de junho de 2010

Contista convidado: Pedro Moreno

Narrado com maestria e excelente poder descritivo, Pedro Moreno em Vestido de Noiva honra a tradição do suspense noir sobrenatural e o arrepio sutil. Falar mais estragaria as surpresas deste ótimo conto.


Vestido de Noiva


Por Pedro Moreno

O barulho das máquinas de costura aos poucos vai diminuindo conforme os aparelhos são desligados. Quando a lua já está alta no céu só apenas a costura de João Carlos se faz ouvida, ininterrupta com linha reta firme, tal qual sua mãe lhe ensinara quando ele era um pequeno fascinado pelo trabalho de sua progenitora.
Agora com cinquenta anos de idade, João percebe que não saberia fazer nada além de costurar. Em sua oficina trabalham trinta mulheres que se revezam em três turnos. Algumas desenham, outras cortam os moldes e por fim têm as costureiras e bordadeiras que colocam o sonho em uma peça caprichada.
Ateliê Santo Antônio faz a promessa do santo ganhar ares reais. Por mês mais de cinquenta vestidos de noiva são feitos e o dobro são reformados garantindo o grande sonho de se casar no mais puro branco de véu e grinalda. João ainda se lembra quando começou a ajudar sua mãe na costura, sempre tão dedicado, aprendeu rápido o ofício e ainda hoje mantém o costume de só parar de trabalhar depois que todos forem embora.
O galpão que hoje ocupa o ateliê em nada lembra o começo pobre, diversas araras cobrem as paredes com a alvura dos vestidos de noiva, a monotonia só é quebrada pelos vestidos coloridos de madrinhas e os fraques elegantes dos homens. São prateleiras com sapatos envernizados, gavetas multicoloridas de gravatas e dezenas de caixas com coroas. Mas hoje, à meia-noite, tudo quieto, tudo sombrio.
João confere o relógio e diz para si mesmo que é hora de parar. Desliga sua velha Singer e a cobre com a capa de veludo azul. Tira seus óculos pesados e os guarda no bolso da camisa enquanto olha ao redor procurando algo fora do lugar. Uma caixa de papelão pousada sobre um banco lhe chama a atenção. Ele arruma seus suspensórios e anda até o cubo, um papel pousado em cima com fita adesiva conta o motivo.
Uma devolução.
Nem sempre acontece, mas pode ocorrer do casamento ser desmarcado por vários motivos, traição e falta de dinheiro para pagar pelo vestido são os mais recorrentes. Porém morte é o mais perturbador. João lê a ficha indicando que a noiva morreu durante um assalto há apenas dois dias do casório, a família, já traumatizada, não quis ficar com o vestido e o devolveu. O costureiro compreende o quão difícil deve ser para a família uma tragédia como essa.
Pode parecer aético, mas é uma verdade: O vestido será vendido para outra pessoa. Um vestido tão bonito assim, parado em uma caixa, não serve de muita coisa. É só questão de aparecer a noiva certa e apenas alguns ajustes e logo tudo estará novo em folha. Antônio levanta a peça pelos ombros e contempla o belo trabalho realizado, o cetim branco com as rendas em torno da cintura para garantir uma silhueta primorosa. Subitamente o contorno de um rosto passa pela saia como se alguém tivesse o vestindo. João assustado, joga longe a roupa. Uma gota de suor desce pela sua fronte e pousa na sobrancelha. O homem leva suas mãos trêmulas à boca enquanto respira ofegante com os olhos fixos no vestido caído.
O costureiro não se acalma, mas encontra conforto em sua racionalidade. É claro que foi um truque aplicado pela sua mente. Ele acabara de ler a história triste da moça que morreu antes do casamento. Mesmo assim, por precaução, João segue pé ante pé até o vestido, o agarrou com pressa e enfiou na caixa de qualquer jeito, tampou-a e a largou.
Ao sair desligou as luzes e deu uma última olhada para a caixa. Trancou a porta.
João Carlos demorou para conseguir abrir os olhos, quando o fez percebeu que o sol estava no alto. Em tantos anos de trabalho nunca se atrasara, talvez a noite mal-dormida, talvez a história da noiva impedida pela morte, porém hoje foi a primeira vez.
Sorte sua que a gerente de produção tem as chaves, aliás ela mesma o recepcionou com uma cara de surpresa. João acenou um bom dia e logo esquadrinhou o galpão a procura da caixa com o vestido. Nada achou.
— Cadê o vestido? — Perguntou João
— Qual vestido João?
— Aquele que a mulher... morreu.
A gerente puxou os arquivos e achou um recibo de venda. O vestido já tinha uma dona, que pagou em dinheiro e levou embora a vestimenta. O costureiro deu um suspiro aliviado. Aos poucos João voltou ao seu ritmo de trabalho.
Com as agulhas trabalhando freneticamente, João se perde no tempo e não percebe que está sozinho novamente. Apenas acorda com o barulho da campainha ecoando pelo galpão. O costureiro se levanta e segue até a porta, do outro lado um policial e uma viatura em cima da calçada com a porta aberta, no banco do passageiro uma caixa de papelão.


João Carlos de Oliveira Pacheco. 50 anos, casado, uma filha, profissão costureiro. Essas foram umas das poucas verdades contadas no boletim de ocorrência. O fato do vestido ter pertencido à outra jovem foi simplesmente ignorado pelo costureiro, ao final foi liberado junto com a caixa.

No caminho de casa, João olhava para a caixa preocupado com que faria, não poderia ser coincidência o que acontecera, seria melhor ele perder o dinheiro do que mais uma vida inocente. Em cima de um guarda-roupa pousou a caixa de papelão esperando o destino que João lhe daria.
No outro dia o costureiro chegou cedo no trabalho e logo sua máquina voltou a funcionar à todo vapor. Assim foi até João receber um telefonema de uma vizinha dizendo que havia algo errado em sua casa. Sem pensar duas vezes ele pega as chaves do carro e ruma rápido com destino certo. Passa semáforos vermelhos e cruzamentos perigosos até conseguir alcançar sua residência. A chave gira a maçaneta. A porta abre. O susto toma conta.
O policial fica pensativo. Não é possível tirar a garota sem fazer barulho. Na outra sala João não consegue parar de chorar, sua mulher chega em casa e se depara com seu marido em frangalhos, soluçando, tentando explicar em vão o que acontecera com sua filha.
O oficial tira um canivete do bolso e sobe em uma cadeira, fará barulho com certeza, porém não há meio de descer o corpo da garota de outra forma.
João não consegue falar, mas aponta em direção à cozinha. Sua esposa segue aflita e entra no exato momento que o policial consegue serrar a corda na qual a garota se enforcara. O corpo com um vestido de noiva cai pesadamente no chão fazendo um baque surdo. Na outra sala João chora.

FIM

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Nasci em Osasco. Estudei no Misericórdia, Fernão Dias e na UNIFIEO. Aprendi muito na escola e aprendi muito mais vivendo. Já fui estagiário de Analista de Sistemas na CESTESB e Relações Públicas na SMADS. Trabalhei em loja de RPG, Refrigeração, Jornal e com Internet. Hoje sou comerciário e escritor nas minhas poucas horas vagas.
Ingressei na literatura cedo, apredendo a ler com 5 anos. Comecei a escrever quando criei o site Biblioteca dos Vampiros, porém apenas em agosto de 2009 comecei a escrever com regularidade "postando" um conto novo toda semana. Foi também neste ano no qual participei de minha primeira antologia: "Metamorfose: a Fúria dos Lobisomens".
Acredito que a leitura é o primeiro passo para um país melhor. Ajudar na literatura de sua pátria é ajudar no crescimento de seu povo.

Site oficial: http://www.pedromoreno.com.br/

domingo, 30 de maio de 2010

Contista Convidado: Xande Ribeiro

Em tempos de sanguinolência excessiva e truculência literária é muito prazeiroso ler um conto como Uma Pequena Ponte. Utilizando a ponte como símbolo e metáfora visual para compreensão e esperança, o autor, por meio de um tom essencialmente oral e diálogos espontâneos cria uma bela fábula de charme e atmosfera regionalista e romantismo sombrio.


Uma Pequena Ponte


Por Xande Ribeiro

Uma pequena ponte, sim, uma pequena ponte separava as duas vilas, e claro, ela não era suficiente para conter a animosidade de seus cidadãos irmãos, já que uma coisa inominável aconteceu entre eles. Hulda a filha mais nova da família Nielsen pertencia aos da banda de lá, e Lars o mais moço dos Bergs, aos da banda de cá.

Eles se conheceram meio que a contra gosto, pois o pequeno Lars adorava pescar, e a menina Hulda adorava maçãs. Enquanto Lars intentou passar a ponte para pescar no lago dos da banda de lá, Hulda vinha pelo outro extremo da ponte roubar maçãs dos da banda de cá. A ponte era então o elo entre os dois displicentes.

- Hei, você não pode atravessar a ponte!
- Mesmo? E o que é que você está intentando fazer?
- Venha que eu explico! Disse isso acenando.
- Ora, venha você aqui!
- Vamos os dois, está bem? Assim, se nos virem, não acharão que estamos contrariando as leis.
- Está bem!

Eles se aproximaram e Hulda estendeu a mão para ser beijada por Lars. E Lars a tomou e a sacudiu como se ela quisesse um aperto de mão.
Hulda o olhou com um olhar inquisidor e pensou consigo.

- Grosseirão!

E Lars a olhou e pensou:

- Aperto de mão suave... Hum, a mão dela cheira bem!
- E então menina, vai ou não vai me dizer seu nome?
- Ora, diga você primeiro!
- Sou Lars Berg.
- Encantada, sou Hulda Nielsen.
- Nossa, sua família foi quem começou a briga!
- Que mentiroso, sua família foi quem nos roubou!
- Ora, abusada, como se atreve a me ofender?
- Vejo que você é realmente um grosseirão!
- E o que é isso?

Hulda sorriu descontroladamente, enquanto Lars, não contrariando as expectativas, também.

- Lars, vamos esquecer que somos inimigos, está bem?
- Por que pede isso? Meu pai me mata se eu esquecer quem eu sou!
- Lars, você quer ser meu amigo?
- Acho que sim, vamos fazer uma combinação então!
- E o que seria essa sua combinação?
- Você finge que não me vê indo para a banda de lá.
- E eu finjo que não vejo que você entrou na banda de cá, que acha?
- Acho perfeito, mas quero saber, o que faz querer passar a ponte?
- Ora, os peixes!
- Ah, danadinho, o lago!
- Sim, os melhores peixes estão no lago de lá.
- E você, diga!
- As maçãs.
- Hum, as maçãs são melhores da banda de cá.
- E como sabe? Já comeu as maças de lá.
- Já!
- Mas que traquinas! Você já foi para lá quantas vezes?
- Num posso contar! E sorriu.
- Essa é a minha primeira vez.
- Então se sirva, e volte quando quiser, mas não conte a ninguém. Está bem?
- Trato feito!

Todos os dias eles se esgueiravam até a ponte, a verdade é que faziam de tudo para não serem vistos. Quando avistavam alguém, não se arriscavam. Tinham até um esquema, Lars tocava uma gaita para dizer que estava tudo bem.

Eles sempre se cumprimentavam no meio da ponte e seguiam caminho, ele para o lago e ela para as suas maçãs desejadas.

O tempo foi passando e o interesse pelas maçãs e pelos peixes foi diminuindo e o motivo que os guiava era outro. Engataram um namoro secreto que os fazia tremer de felicidade quando estavam juntos.

Como Lars já era um homem e Hulda uma moça formosa à vista, os pretendentes não faltavam para ambos, mas eles sempre davam desculpas esfarrapadas para os rompantes dos enamorados. Hulda deixava transparecer que estava apaixonada por alguém e que estava comprometida. E Lars, bem, o Lars sempre dava uns amassos nas meninas, para que todos se convencessem de que estava apaixonado, mas logo acabava com tudo e voltava para os braços de Hulda.

O cerco foi se fechando para os dois, pois os pais começaram a desconfiar que havia algo de errado. Hulda vivia dando motivos para sair de casa à tarde e Lars sempre dava um jeito de terminar seus serviços o mais rápido possível para a sua fugida diária.

O irmão de Lars um dia o seguiu, e por sorte, ou azar, naquele dia Hulda não pôde sair de casa, pois a mãe a encheu de inúmeras tarefas.
Como ele chegou próximo da ponte, o irmão o abordou dizendo:

- O que faz aqui?
- Ora, nada! Muito me admira você perguntar o que eu faço aqui? Você é quem deveria dizer o que faz aqui, seu moleque de meia tigela!
- A mãe tá de olho no senhorzinho.
- A mãe não tá de olho nada, seu pivete, você tá!
- Você tá pegando alguma moça da vila de lá?
- Que moleque abestalhado!
- Eu vim pegar maçãs, abestalhado!
- Até parece que vou acreditar!
- Não sai por aí contando mentira, moleque, senão te encho de safanão!
- Pode deixar que num conto, mas se cuida, afrescalhado!
- Ô moleque safado, vem cá, que eu lhe enfio a mão na cara!
- Tenta, afrescalhado!

E saiu correndo para os braços da mãe.

- Onde você tava, Lars?
- Tava caçando maçã!
- Você não tá tentando ir para a banda de lá, tá?
- Magina, mãe, eu ir para a banda de lá? E o que tem lá que não tem cá?
- Fica esperto, seu moço, senão você acaba se metendo em encrenca.
- Não se preocupa véia, sei me cuidar!
- Tá bom, vai se lavar, que a janta tá na mesa.

Lars no outro dia foi à ponte e para a sua felicidade encontrou Hulda.

- Moça, o que aconteceu?
- Minha mãe, acha que estou aprontando alguma coisa.
- A minha botou até o pivete do meu irmão para me vigiar.
- Lars, precisamos ter cuidado!
- Sim, minha flor!
- Que acha da gente se encontrar à meia noite?
- Vou fazer o possível!
- Então te espero, minha flor!
- Está bem!

Lá pela meia noite, Lars chegou à ponte, e lá estava a sua Hulda, formosa como sempre.

- Oi querido, por que demorou?
- Nossa, demorei tanto assim? Deve de ter passado uns trinta minutos. É que o praga do menino demorou a dormir!
- Seu irmão?
- Sim, toda vez que eu ensaiava abrir a janela, ele respirava fundo. Até que adormeceu pra valer.

Ao longe estava o moleque avistando tudo, ele havia fingido o sono para pegar o irmão com a mão na massa. De mansinho ele se achegou, e então gritou!

- Embusteiro! Você tá de coisa com a menina dos Nielsen?
- Henrike, volte aqui! Não conte aos nossos pais!
- Então Lars fez algo inconcebível, pegou uma pedra e atirou no irmão.

A pedra atingiu a nuca do menino, que morreu em poucos instantes.

- Meu Deus, o que você fez?
- Eu só queria pará-lo, ele está bem?
- Lars, ele está morto?
- O quê?
- Ele não está respirando, está morto!

Hulda pôs-se a chorar descontrolada, enquanto Lars olhava para o irmão e grunhia de tanta dor que sentia em seu coração.

- O que eu fiz, matei meu irmão, matei meu irmão!
- Calma, meu amor, não foi sua culpa!
- Saia daqui, abominável! Você, sua bruxa, me enfeitiçou! Eu não quero mais vê-la.
- Lars, mas eu o amo!
- Saia já daqui, maldita! Você me atiçou, a culpa foi sua!
- Lars, porque está me tratando assim?

Ele a esbofeteou.

Lars olhou para ela arrependido, e disse:

- Desculpe, não foi sua culpa, me desculpe.

Hulda saiu correndo e não olhou para trás.

Então o pai de Lars que vinha de uma caçada naquele dia, chegou a cavalo e viu os dois na ponte.

- O que acha que está fazendo, seu tolo?
- Pai, eu sinto muito! Gritou em prantos.
- Henrike? O que você fez Lars?
- Eu o matei! Mas foi um acidente.

O pai o esbofeteou e gritou:

- Maldito! Matou meu filho, maldito! Saia daqui, seu desgraçado, não o quero mais na minha casa, vá para junto daqueles abomináveis.
- Mas Pai, eu não tive culpa.

...

A filha chegou a casa e estava com o rosto vermelho da bofetada.

- O que estava fazendo fora de casa a essa hora?
- Mãe, eu... Eu não posso...
- E essa marca de mão na cara?
- Hulda, conte-nos, o que aconteceu?
- Mãe, não aconteceu nada!
- Você esteve com um homem, menina?
- Pai, eu...
- Maldita, como se atreveu? Manchar minha casa!
- Pegue suas coisas e suma daqui!
- Pai, por favor, não!
- Maldita, abominável, suma daqui, sua perdida!

O pai de Lars levou Henrike consigo e deixou Lars soluçando de dor, enquanto Hulda corria para a ponte.

- Lars!

Lars havia feito um laço e colocado em seu pescoço, e na hora em que Hulda entrou na ponte. Ele a olhou por alguns instantes, com um olhar triste e desalentado, nada gesticulou, se despediu com os olhos e pulou.

- Lars, não, meu amor!

Já era tarde, Lars quebrara o pescoço na queda.

- Lars, meu amor? Por que fez isso?

Hulda, perdida e sem esperanças, desenlaçou a corda e deixou seu amor cair no rio.

Então olhou para a Lua que estava viva e perfeita no céu, despediu-se do mundo, pulou nas águas frias; ela enrolou-se na corda e no amor de sua vida e morreu afogada.

Os habitantes da banda de lá e de cá sofreram a perda daquelas duas almas descrentes, pois jamais encontrariam a paz. Os pais de ambos se reuniram uma última vez, nada disseram, mas destruíram a ponte que ligava as duas vilas. Eles não se falaram, mas a dor e o remorso podiam ser vistos marcados em seus rostos.

E daquele local, ninguém mais se aproxima, pois dizem que à meia noite, uma cena estranha acontece por cima daquelas águas. Um homem anda por uma ponte inexistente chamando por uma jovem chamada Hulda e uma mulher anda pela mesma ponte gritando o nome de Lars, eles se avistam e correm um ao encontro do outro, e quando estão prestes a se tocar, desaparecem no vazio.

FIM

sábado, 29 de maio de 2010

A PROVA

Por Ramon Bacelar


Asfixiada pela ansiedade e expectativa da eterna espera, Júlia agora expressava seu alívio e momentânea satisfação na forma de um sorriso e de um aceleramento das batidas cardíacas que pareciam prenunciar mudanças substanciais.
Com desvelada expectativa colocou a pesada encomenda postal em cima da mesa, suspirou e só quando tocou um papel alvo de textura rugosa, teve consciência da realidade à sua frente. Abriu a carta:


Rio de Janeiro-RJ 17-05-10

Amor,

Hoje consigo respirar, meditar e tomar coragem para lhe escrever. Os últimos dias foram de tormentosa angústia, mas também de reflexões e conclusões. Os acontecimentos dos últimos meses não apenas me serviram como confirmação do caráter essencialmente imprevisível da natureza e comportamento humano, mas também como um prenúncio de mudanças cuja natureza parecem sinalizar dias melhores e talvez felicidades duradouras. Não deixo de reconhecer minha (não tão pequena) parcela de culpa no que aconteceu e nem inteiramente me desvencilhar da responsabilidade do que vou relatar. Do meu relacionamento com ela você já sabe, mas das conseqüências de tão tumultuada relação...muito pouco.
Se hoje tenho um pouco de paz de espírito, é justamente pela imutável certeza em minha mente: eu não a matei. Pelo menos não no sentido estrito da palavra. Melhor seria dizer que... não tenho definição, as palavras não encompassam a beleza, nobreza e grandiosidade do meu ato. O que eu fiz foi convidá-la para conversar no meu apartamento, proposta que ela prontamente recusou, mas lhe prometi que seria a última vez: sou um homem de palavra.
Sentada na ponta do sofá próxima à porta, degustava o vinho à medida que imperceptivelmente esmorecia.
Comecei pelos cabelos. Melhor, em firmes puxões fui o arrancando em mechas a medida que seu coro cabeludo ganhava vida com o vermelho rubro; ao mesmo tempo sua dormência, somada a ata presa à sua boca, emitia sonoridades semelhantes a um gato enfermo. Recolhi as mechas e fiz uma trança semelhante a uma corda de alpinista; enrolei-a em meu pescoço para testar sua firmeza e como um pêndulo embriagado e desconexo apresentei o resultado às suas retinas que responderam com o súbito engrandecimento do círculo negro. Coloquei-a ao lado do seu delicado pescoço, transformando-a momentâneamente numa Rapunzel desamparada; talvez para adiar aquilo que não deveria acontecer, ou criar uma enganadora noção de uma criatura frágil e indefesa a meu lado, uma pessoa cujo sorriso nada mais era que o reflexo do seu ser interior.
Quase adormecida, despertei-a do seu devaneio onírico com delicados furos de canivete nas unhas do pé: a intenção não era lhe provocar dor intensa (sou uma pessoa de ações moderadas), mas a trajetória de suas lágrimas em sua face de traços finos pareciam indicar algo... minha capacidade de auto-expressão por vezes me abandona.
Com a ata agora ensopada de baba e dor, os olhos como duas piscinas transbordantes, ela balançava a cabeça num gesto de piedade e compaixão, ela... piedade e compaixão...
Peguei a trança, enrolei-a no pulso; o líquido salgado, agora envernizando sua face com um transparente oleoso, em suas profundezas, escondiam criaturas brancas cujos sorrisos me lembraram do caráter essencialmente enganador de toda superfície: ela, puro sorriso, meiguice, lágrimas e... superfície.
Com fúria incontida desenhei em seu pescoço cada fio de cabelo e curvatura de sua trança, meu ódio e frustação traduzidos em linhas, traços e escoriações vermelho-roxo em cujo delineamento pareciam desenhar o mapa de nossa tortuosa existência. Em seu sorriso forçado e olhos vítreos enxerguei pela primeira vez sua honestidade emocional: espírito e superfície por esta vez em perfeita comunhão. Senti minhas mãos perderem a força ao mesmo tempo que seu corpo murchava como um balão sem gás.
Só tive forças de pegar o canivete e lhe enviar a prova do meu amor neste pequeno, porém pesado pacote de papel pardo.

Eu te amo. M.K.

FIM

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Contista Convidada: Simone Marck

Simone Marck demonstra em seus melhores textos uma urgência e imediatismo que prende o leitor da primeira a última linha. Ao contrário do formato clássico do miniconto cujas linhas finais culminam numa explosão e dão sentido ao que foi dito antes, seus minicontos, assim como os da Joyce Carol Oates e alguns da Patricia Highsmith, possuem uma qualidade insidiosa e ameaçadora que vaza da primeira à última linha. Eles são menos uma bomba ou uma bala dum-dum que fazem o estrago de imediato e sim um veneno administrado diariamente na refeição durante meses, mata aos poucos e silenciosamente. Última Noite é uma...leiam!



ÚLTIMA NOITE


Por Simone Marck


Ela estava ali na cama, nua.
Holly, a jovem de cabelos ruivos e formas perfeitas, sentia novamente a sensação de vida correndo em suas veias. Uma noite de amor, de entrega, de perfeição absoluta... Há tempos não se sentia repleta como naquela noite. A lua deixava passar sua luminosidade pela cortina branca do quarto e Holly contemplava a face de Bruce. Era uma face branca de um quase garoto, mas com um corpo forte e bem exercitado de homem.
Aquela face tão branca transmitia uma irremediável sensação de paz. Holly levantou, vestiu a roupa, calçou suas botas de cano alto e antes de sair, olhou para o corpo sem vida do seu amado, que agora finalmente descansava em paz com uma estaca de madeira que ela mesma cravou em seu peito e, ela, vampira solitária, deveria seguir o seu caminho, sem nenhum homem para atrapalhar sua terrível sina.

FIM


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Simone Marck escreve contos,crônicas e poesias. Sua especialidade são temas da literatura fantástica e surreal voltados às dores humanas mais essenciais.

Outros trabalhos disponíveis em http://recantodasletras.uol.com.br/autores/simonemarck

domingo, 23 de maio de 2010

A MIRAGEM INCONCEBÍVEL

Por Ramon Bacelar


Engolindo em seco por horas a fio, não se deu conta da necessidade do esquecimento absoluto e nem percebeu que acabara de penetrar na Região das Miragens Inconcebíveis. O vento quente, em conjunção com o círculo fervente acima de sua cabeça, cuja aparente tarefa era de castigar sua garganta e minar sua energia vital, trabalhava secretamente na abolição dos sulcos de areia formados pelo lento arrastar de suas pernas nas dunas arenosas: era como se a natureza almejasse a aniquilação absoluta, o extermínio supremo de qualquer vestígio humano em seus aclives arenosos.
Sentiu os lábios como uma folha seca; a língua vacilante como um trapo de saco de estopa, lutava com movimentos e obrigava em vão que palavras de socorro invadissem a imensidão amarelada e ocupassem inutilmente os vácuos solitários.
Do seu ângulo de visão, o conforto de uma morada ou de um lago límpido eram apenas uma ilusão vaporosa, menos real que a imagem de uma alegria duradoura e tão substancial como uma miragem permanente. Não lhe restava nada mais senão contorcer, rastejar e almejar por algo que não conseguia visualizar nem definir, mas por um secreto impulso que não conseguia explicar...almejava.
Uma substãncia sólida arranhou o seu rosto e por um momento lhe veio a mente uma lembrança: a lembrança da esperança e uma imagem: a imagem de um cantil. Impulsivamente girou o corpo, agarrou o objeto sólido e num gesto desesperado levou-o a boca, mas a crespura e aspereza com que a substância desbravou sua garganta o fez concluir que tinha engolido areia e o que tinha tomado por um cantil não passava de areia petrificada que se despedaçou em sua mão junto com a sua esperança: abaixou a cabeça...desmaiou.
Quando despertou...achou que despertou, e por um momento sonhou: não se lembrou do que, mas identificou as sensações causadas pelo devaneio onírico, sensações que lhe deram por um curto espaço de tempo paz de espírito, enquanto outras faziam fila aguardando ansiosamente a chegada e lá atrás, austera e imponente a Sensação Suprema aguardava, ansiosa para intimidá-lo, dominá-lo, e inundá-lo de felicidade e vida líquida. Quando chegou, afogou-o com sua realidade úmida e refrescante, passava a mão na garganta e sentia seu pomo de adão se mover num frenesi de satisfação e saciação, queria congelar o tempo, transmutá-lo numa eternidade ou em uma úmida miragem perpétua, e de tanto que desejou, insistiu e pressionou, transformou involuntariamente a realidade do sonho no Pesadelo da Realidade: levantou a cabeça... despertou.
A aspereza em sua garganta o fez lembrar o arranho de cordas gastas de um violino sendo tocadas por um vento quente, que agora parecia dominar seu espírito e penetrar em seus poros como fios de aço em brasa; açoitava-o com uma fúria invisível e quentura impiedosa, transformando-o lentamente numa carcaça de humanidade, num monge arrependido e atormentado pela noção de que fora abandonado pelo Criador.
Quis gritar mas não conseguiu; tinha consciência da inutilidade do ato e a certeza que tamanha estupidez só serviria para prolongar o sofrimento e ressecar ainda mais suas cordas vocais, queria poupá-las para o Momento: o grito final.
Pensou em parar, mas concluiu que sem os movimentos, nem o atrito da areia e vento quente, sua morte seria mais tormentosa: iria acelerar para se distanciar da vida e chegar mais rápido a morada negra. Rastejou, rastejou e quando foi minado de qualquer energia resolveu dar um impulso ao seu desejo de morte rápida. Girou o pescoço em brasa e visualizou com as retinas em fogo um cantil transbordante de vida líquida semi-petrificada, recordou de imediato sua experiência anterior e soube que não era, tinha consciência da infinita capacidade ilusória desta absurda região dantesca e, sabendo que a saída não era saída, queria saciar a vida com a morte, ia beber a areia, degustá-la como se degusta um vinho de boa safra: ia matar a sede de morte e abandono da vida com a morte... e morreria feliz e saciado. Como um enófilo ensandecido levou a areia a boca e bebeu, bebeu, bebeu... e percebeu que o que descia em sua garganta tinha leveza, textura sedosa e... sensação líquida, percebeu, enquanto a vida lhe retornava, que fora salvo (ou enganado?) pela Miragem Inconcebível... enganadoramente inconcebível.


FIM

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Contista convidado: Luiz Poleto

Tenho a honra e satisfação de publicar no Miragens Ofuscantes um conto do escritor e amigo Luiz Poleto. Dono de uma escrita polida e controlada, Poleto demonstra em seus ótimos contos uma qualidade cada dia mais rara na ficção de horror: sensibilidade. Ao invés do susto fácil e choque barato ele opta pelo arrepio sutil e uma economia de efeito digna dos melhores britânicos. O diário de Melissa reúne todas essas qualidades e muito mais.
Chega de papo.



O DIÁRIO DE MELISSA

Por Luiz Poleto

Eu sempre a encontrava no mesmo horário. Todos os dias, às seis horas e trinta e oito minutos da tarde ela aparecia. Nunca falava nada, e eu, sempre tímido, também cultivava o silêncio que se impunha entre nós. Durante quinze ou vinte minutos ficávamos ali, sentados, conversando através de uma sinuosa troca de olhares.
Lembro de tê-la visto pela primeira vez enquanto caminhava pelos vastos jardins de minha nova residência. Alguns dias antes eu havia subido ao sótão da casa procurando por algo que agora já não me recordo. Encontrei o seu diário em meio a uma pilha de objetos, que foram deixados ali pelos antigos proprietários. O pequeno caderno chamou minha atenção por estar bem conservado, cuidado com evidente carinho. Sentei-me em uma cadeira próxima e, com interesse, comecei a folhear suas páginas, vagarosamente. Perdi a noção de tempo e acabei me esquecendo do que eu fora buscar ali.
Só me dei conta da hora quando o dia começou a escurecer e a leitura tornava-se difícil. Saí do sótão em direção ao meu quarto. Eu simplesmente não conseguia parar de ler aquelas páginas, havia algo de mágico, algum encantamento que fazia com que eu mantivesse meus olhos grudados naquelas páginas. Talvez fosse a caligrafia, que era tenra e suave; ouso dizer que cada letra constituía uma pequena obra de arte. Fiquei acordado até tarde, até que adormeci sentado na pequena poltrona existente em meu quarto.
Por um ou dois dias, meu tempo foi tomado pela leitura daquele diário. Ele pertencera a uma das filhas da antiga proprietária da casa. Nunca soube seu nome, pois o diário não o tinha anotado em lugar algum. Resolvi chamá-la de Melissa – apenas um nome escolhido aleatoriamente. As aventuras e desventuras descritas naquele pequeno caderno talvez não fossem interessantes, mas apresentaram-me uma pessoa com incrível personalidade, graciosa, meiga, e feroz, quando preciso. A cada dia que eu lia o diário, sentia-me mais e mais atraído por ela. A primeira vez que percebi isso, porém, uma estranha sensação tomou conta de mim. Percebi que estava apaixonando-me por alguém que eu ao menos vira, alguém a qual nunca tive qualquer tipo de contato senão por suas palavras. Apesar disso, sentia-me como se conhecesse profundamente Melissa, como se fossemos íntimos.
Deixei o diário de lado por uma semana inteira, e retomei as minhas atividades rotineiras. Um dia, quando eu havia terminado os meus afazeres da tarde, resolvi caminhar pelo extenso jardim dos fundos da propriedade. O canto dos pássaros formava uma orquestra desordenada, mas agradável de ouvir e o cheiro da grama, que se apresentava em um verde vivo, praticamente brilhante, causavam uma sensação de paz que há muito eu não sentia.
Segui pela trilha de pedras até chegar ao exagerado chafariz, que se localizava exatamente no centro do jardim. A água descia da boca de sombrios querubins que rodeavam uma espécie de espiral, que apontava diretamente para o céu. Talvez fosse um indicador do caminho do paraíso, caso alguém estivesse perdido. Sentei na beirada e, com uma das mãos, fiquei revolvendo a água.
Uma estranha sensação tomou conta de mim, a sensação de que alguém o observa e espreita na escuridão, por todos os lugares onde você passa. Parei de mexer na água e dei um pulo para trás, tropeçando e caindo sentado próximo ao chafariz. Ao meu lado, a poucos metros de onde eu estivera, uma presença feminina estava sentada, também revolvendo a água. Ela parou e me olhou, sem demonstrar o mesmo espanto que mostrei quando pulei de onde estava.
Curiosamente, não a ouvi chegar. Talvez eu estive tão perdido em meus pensamentos que meus sentidos estivessem perdidos juntos comigo. Quando meu coração voltou ao ritmo normal, olhei cuidadosamente a mulher sentada ao meu lado. Não precisei de muito tempo para saber que se tratava dela, Melissa. Lá estava ela, do jeito que eu a imaginava: pele branca, que parecia banhada pela luz da lua, longos cabelos negros vertiam-se sobre seus ombros, o rosto de curvas finas e delicadas, e os olhos mais hipnotizantes que eu já vira, negros como a noite.
Quando balbuciei tentando falar alguma coisa, ela fez um sinal com a mão para que eu fizesse silêncio. Obedeci sem pestanejar, mesmo porque eu não fazia a menor idéia do que falar. Com um sinal, ela pediu que me sentasse a seu lado, o que fiz com a velocidade de um adolescente. Trocamos olhares e seguramos nossas mãos; anos de cumplicidade em apenas alguns dias. As horas passaram, a noite chegou, e com ela, Melissa foi embora. Da mesma forma que chegou, sem dizer uma palavra, sem fazer um barulho. Continuei ali, sentando, contemplando a noite, observando-a ir embora.

(...)

Semanas se passaram, e todo dia, exatamente no mesmo horário, eu fazia a minha caminhada em direção ao chafariz. Depois da segunda semana, o canto dos pássaros não passava de um gralhar irritante, e o cheiro do mato não podia mais ser distinguido do cheiro proveniente dos estábulos. Eu não caminhava mais, eu corria apressadamente em direção ao monumento ao grotesco que era aquele chafariz que ocupava o fétido jardim. Tudo mudava quando Melissa chegava e iniciávamos a nossa troca de silenciosa de olhares. Aquele era o momento em que o mar atingia as rochas, o momento em que o mundo parava e os animais calavam-se. Aqueles eram os quarenta e seis minutos mais aguardados do dia.
Quando o encontro terminava, silencioso como começara, eu fazia o caminho de volta ao inferno. Voltava para a minúscula casa que me sufocava enquanto o tempo se arrastava até que chegasse o dia seguinte. Algumas vezes, no meio do dia, percorri a propriedade para tentar encontrar o lugar de onde Melissa vinha. Desnecessário dizer que foi uma busca infrutífera, embora eu suspeitasse de uma falha no muro aos fundos da propriedade, que dava em uma estreita estrada de terra que seguia em direção ao nada.
No quarto mês, uma situação, que eu classificaria como desgraça extrema, deixou-me a ponto de cometer uma estupidez. Melissa não apareceu. Esperei por horas, mas ela simplesmente não veio. Deitei-me no chão ao lado do chafariz e só acordei quando os primeiros raios de sol cutucaram-me o rosto. Voltei para a casa, correndo, e peguei o diário. Passei o resto do dia lendo-o, na vã esperança de encontrar qualquer pista que pudesse me dar o paradeiro de Melissa. Talvez ali estivesse anotado o lugar para onde ela se mudou com a família.
Dois, três, talvez quatro dias seguidos e ela não apareceu novamente. A ausência dela era como uma cólica que me atacava o estômago, fazendo com que me curvasse e, às vezes, caísse no chão. Os meses passaram e Melissa não aparecia. Eu já não trocava as roupas, não cortava o cabelo ou fazia a barba. O calendário pendurado na parede da cozinha ainda estava com a data do meu primeiro encontro com Melissa. Tudo o que fazia era ler o diário e fazer anotações que pudessem ser relevantes sobre ela.
Resolvi, um dia, seguir até a falha no muro dos fundos da propriedade e seguir a obscura estrada que se mostrava visível. Caminhei por alguns quilômetros, sem encontrar nenhuma construção, vila ou viva alma; deparei-me, entretanto, com um imenso descampado, cercado por um muro de não mais do que um metro e altura e completado por grades já enferrujadas até dois metros de altura. O portão estava quebrado, e pendia serenamente para o lado de dentro, escorado em parte pelo muro. A noite já se aproximava e logo não seria possível enxergar muita coisa. Apressei-me através do portão.
Demorei alguns minutos até perceber que o chão era ornamentado por lápides, e, logo o percebi, o desespero tomou conta de mim. Imaginei coisas terríveis, embora esperasse que não fossem verdade. Distante no horizonte, uma figura fez-se visível. Não demorei até perceber que era ela, a figura que povoava a minha imaginação e que dominava o meu universo. Melissa estava ajoelhada de frente para uma sepultura, que logo deduzi ser a dela. Corri ao seu encontro, e, como de costume, não trocamos uma palavra ao estarmos perto um do outro. Lá estava ela, linda como sempre, morta como sempre. Ela apontava para a sepultura, com um pequeno sorriso no rosto. Abaixei para tentar ler o nome que ornava aquele belo pedaço de mármore. Quando finalmente compreendi o que ali estava escrito, senti a cabeça girar. A escuridão se aproximou e a última coisa que me lembro foi o impacto de minhas costas no chão.

***

Quando acordei, estava deitado em minha cama, os lençóis desarrumados e sujos de barro, provavelmente por causa da sujeira em meus pés. Lentamente, as imagens foram aparecendo em minha mente, até que finalmente lembrei-me do ocorrido. Corri até a cozinha em direção ao calendário, ofegante, arranquei todas as folhas, uma por uma, até que as lágrimas começaram a descer de meus olhos quando percebi que a data era sempre a mesma: 23 de maio de 1978. O calendário não podia estar defeituoso, eu mesmo o comprara na data anterior à que ele mostrava e havia verificado-o atentamente.
Ainda atordoado, apressei-me de volta ao meu quarto em busca do diário de Melissa. Ao folheá-lo, entendi a razão pela qual me apaixonara de imediato por ela. A última página relatava algo parecido com “(...) hoje era o grande dia, o dia em que nossa união seria selada para sempre (...)”; mais adiante, a caligrafia que outrora era bela e graciosa transformou-se em garranchos enfadonhos, e dizia algo assim: “Espero que o Senhor, misericordioso, tenha uma explicação bem convincente para o que aconteceu, do contrário, vou entender este gesto como extremo egoísmo e sadismo!”. A data era 24 de maio de 1978. Chorei novamente quando lembrei que 24 de maio era a mesma data que constava na bela sepultura de mármore, bem abaixo do meu nome, ao lado da minha data de nascimento.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Vingança do Ghoul publicado no blog Casa das Almas

Desta vez com formatação adequada e apresentação pra lá de classuda:

http://casadasalmas.blogspot.com/

Artigo sobre minicontos

Meu artigo sobre minicontos foi publicado na Teia Cultural:

http://www.teiacultural.com.br/

terça-feira, 18 de maio de 2010

Amor-Miniconto

Por Ramon Bacelar

Quando, após um mês de tormentos e hesitações, finalmente declarou a Inês a intensidade do seu amor e de como seu coração ardia e inflamava de paixão, ela, retornando da cozinha, recolheu suas cinzas com uma pá de lixo.

FIM

A Ausência-Conto

Por Ramon Bacelar

Abalado pela impureza de um recente pesadelo, seu mundo onírico agora vacilava. A ameaça ganhou forma, intensidade e momentum, mas antes de investir contra sua essência interior, foi impedida pela luz que penetrava pela janela e acariciava suas pálbebras num defensivo gesto de suave alerta: "abriu os olhos".
Com as retinas absorvendo a imaculada brancura do teto, Luísa meditava e questionava: qual o significado? Não era superticiosa, nem dada a interpretações de herméticos simbolismos oníricos, mas a sensação gerada em seu universo de sonhos invadiu o mundo desperto e agora persistia como um incessante badalar, um sussurro de alerta. Respirou fundo, meditou ... Como uma fotografia revelada em tempo acelerado, identificou a sensação com transparência cristalina: "ausência".
Um vago calafrio percorreu seu corpo escultural; estendeu o braço num gesto ansioso, pegou o fone:
-Lídia?-A voz saiu com um temor velado e reprimido.
-Luísa? Tudo bem?-Perguntou com voz de seda.
-T-tudo.
O efeito balsâmico da voz familiar lhe trouxera por um breve instante paz de espírito : Lídia não estava ausente... e nem a ausência: a sensação continuava.
Com crescente ansiedade revirou a gaveta do criado mudo e ao lado do envelope papel pardo com o resultado do teste de gravidez de quatro meses, encontrou a aliança de noivado. Aliviada, como se para reforçar a sensação de bem-estar, direcionou o olhar para o bouquet de rosas que Cláudio lhe tinha enviado: ondas de contentamento e felicidade a contemplavam e lutavam para ganhar domínio em seu espírito, mas forças opostas, "a" força oposta, espreitava paciente e pulsava com desvelada ansiedade: ia dominá-la.
Levantou-se da cama e buscou abrigo nas certezas materiais ao seu redor: acima da penteadeira, preso em uma desgastada moldura enferrujada, os olhos do seu pai apazigaram-na com seu olhar de ternura e desmedida sabedoria. Com passos leves e cautelosos abriu o guarda roupa e foi tragada pelo breu e cheiro de naftalina; acostumada ao negrume, o vasculhou com olhar inquisitivo e concluiu que estava em ordem, a ordem exterior. Não era o tipo de certezas que procurava, certezas pouco confortadoras e nocivas à ordem do seu mundo interior, certezas que só confirmavam a existência da sensação que a atormentava : a ausência respirava.
Triiiimmm... a chamada a arrancou do seu torpor.
-Luísa, está bem? Porque desligou?
- Desculpe Lídia, a ligação caiu-Mentiu- Ia ligar para o Cláudio e caiu no seu número, mas como você retornou...- As palavras, dominadas pelo medo, em contato com a saliva grossa e pegajosa, saíram pesadas, reprimidas e carentes de vontade própria.
-Luísa, por favor... estou indo aí.
-Não!!-Bateu o fone.
Não era ela, nunca tinha falado desta maneira com sua melhor amiga. Era como se gradualmente perdesse domínio dos seus movimentos, vontades e emoções, seu mundo interior estava abalado: a ausência tinha uma nova morada.
Uma sede repentina a obrigou a ir a cozinha. Pegou a caneca e bebeu, bebeu...não ficando saciada continuou a beber, a sede aumentava exigia, e Luísa bebia...bebia..suava...suava... em movimentos espasmódicos levava a caneca a boca e a água corria...corria...escorria... e ela bebia e a ausência persistia: a água não preenchia. Bam, bam... um novo som incomodou seus tímpanos mas não o identificou. Involuntariamente a caneca vacilou em suas mãos trêmulas e foi de encontro ao chão; a estridência lhe castigou os tímpanos e somado ao caos disforme dos estilhaços no chão invadindo sua retina, percebeu o absurdo de sua atitude: ia vomitar.
Bam, bam...
Ajoelhada de cabeça baixa no banheiro, contemplava serenamente a trajetória do vômito cristalino na junção dos azulejos; sentia-se fraca, tremores e calafrios exploravam seu corpo, se deu conta que o suor a dominava: precisava de um banho.
Bam, bam...
O barulho insistia, irritava, a ausência persistia, dominava. Atravessou o banheiro e de encontro ao espelho foi tomada por um olhar de horror e confusão: seu olhar a questionava. Seus olhos, tomados de puro pavor, a alertaram para a realidade de sua condição. Olhou-se do busto para baixo e a ausência finalmente tomou forma, se fez presente:o bebê não existia, a ausência RIA!.Sua face respondeu ao vislumbre com contorções e inchamentos como se seu rosto fosse despedaçar: AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH meu bebê!!!! Explodiu o horror da realidade em sua mente e face na forma de um grito agonizante, arremessou-se no espelho de cabeça, estilhaçando a verdade em infinitas partículas vermelhas transluzentes.
Bam... bam...
Bam...bam
Bam...bam
Bam...BLAAAAAAAMMM
Era como se o rasgo sonoro penetrasse o tecido temporal: a Realidade da Realidade.
A porta cedeu e Lídia foi ao socorro da amiga: de face encharcada e olhos escancarados, Luísa, recém resgatada do pesadelo pelo abalo sonoro, em posição fetal no colchão úmido, sussurava debilmente uma canção de ninar, enquanto acariciava suavemente os delicados pontos de costura que ia do busto ao umbigo: meu beb... fechou os olhos.

FIM

A Caminho-Conto

Por Ramon Bacelar
Com o vagaroso levantar das pálbebras, deu-se início ao misterioso processo de retorno a consciência.Olhou para os lados e imediatamente sentiu-se asfixiado pelo silêncio opressor e pela escuridão que o cercava como um cardume de piranhas à espera de sua presa. Respirou fundo e por um breve instante encontrou conforto e alívio no pequeno casulo de claridade que emanava da sebosa lâmpada do criado mudo. Mas o ar estava ácido, pesado e lhe penetrava nos pulmões com uma aspereza que lhe fez recordar a voz rouca do maquinista que lhe falou do insignificante desvio e da pontualidade da chegada. Mas não se lembrava de quando, onde nem porquê; não recordava ao menos por quanto tempo tinha ficado inconsciente.
-Boa tarde
Como que por um misterioso ritual mágico, em algum ponto daquele universo de sombras e escuridão, uma voz grave porém serena lhe dirigiu a palavra, e em meio ao processo de reconhecimento, eis que se revelou com uma claridade cristalina, a consciência de que o negrume que o cercava não brotava de uma fonte natural: que insólita encarnação Hawksmooreana teria projetado essa estranha tragédia arquitetônica? Esse monumento de sombras? Quais desusadas matérias primas foram utilizadas como inspiração para uma imaginação ambiciosa e luciferina: transmutar o dia em noite!
Segundos? Minutos? Horas? Dias? Antecipando a sossegada voz, vislumbrou o sereno rosto com sua risada velada e escutou ruídos crespos e metálicos como de instrumentos de carpintaria ou ferramentas cirúrgicas.
-Onde estou? Para onde estão me levando?-A voz saiu opaca e embargada.
-Você está... a caminho.
Foi a última coisa que escutou antes do ribombar do trovão e do som purificador da tempestade.
                                                            FIM